Neruda - ditaduras odeiam quem o povo ama





Enquanto Neruda fugia, e já no exílio, versos do Canto Geral uniram os oprimidos do seu país sob o lema “Resistência”, e os fortaleceram para retomar o caminho da democracia, que levaria, 21 anos após os fatos narrados no filme, à experiência socialista liderada pelo amigo do poeta, Salvador Allende, interrompida pelo golpe de Estado. A ditadura que se seguiu, extinta somente em 1990, deixou herança que ainda impõe limitações à liberdade desfrutada pelos chilenos.



Por Carlos Eduardo Pini Leitão
Fuente: Brasil Popular


“Olhem em todos os lugares, a única coisa perigosa que encontrarão para vocês: Poesia.”

Assim o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), visto como ameaça pelo regime do General Pinochet, recebeu as forças golpistas que, em setembro de 1973, ocuparam sua casa em Isla Negra, onde ele escreveu Canto Geral, a obra clássica fruto do seu amor pelo Chile e por seu povo, e pelos povos oprimidos da América Latina.

O amor do povo a Neruda se manifesta nas pessoas que formam a comunidade cada vez mais extensa dos que guardam em si a realidade e os sonhos que se unem e confundem na poesia.

O filme NERUDA [drama franco-argentino-chileno-espanhol-estadunidense, dirigido por Pablo Larrain, com Luis Gnecco, Gael Garcia Bernal e Mercedes Morán] situa no período vivido de 1948 a 1949 o amor recíproco que unia o poeta, filho de trabalhador ferroviário, e o povo chileno. Como senador eleito em reconhecimento por sua presença junto aos trabalhadores, nas lutas e greves, fiel ao Partido Comunista, tornou-se alvo da perseguição movida pelo regime totalitário que cassou seu mandato, pôs o partido na ilegalidade e internou sindicalistas, militantes políticos, homens e mulheres, em campos de concentração.

“Prendê-lo e humilhá-lo” foi a ordem do ditador, acompanhada por intensa desconstrução de sua imagem pública e criminalização da atuação política, pelo rádio e por meio de cartazes “Neruda traidor”, “Neruda comunista”, afixados nos muros das cidades.

Ao receber, em 1971, o Prêmio Nobel de Literatura, Neruda dedicou metade do discurso de agradecimento à longa travessia, montado a cavalo, em que avançava tolhido por solidão sem margens, no silêncio verde e branco, que era ao mesmo tempo natureza deslumbrante e secreta, e crescente ameaça de frio, neve, perseguição, até transpor as geleiras dos Andes e chegar à Argentina, de onde pôde partir para o exílio na França.

Enquanto Neruda fugia, e já no exílio, versos do Canto Geral uniram os oprimidos do seu país sob o lema “Resistência”, e os fortaleceram para retomar o caminho da democracia, que levaria, 21 anos após os fatos narrados no filme, à experiência socialista liderada pelo amigo do poeta, Salvador Allende, interrompida pelo golpe de Estado. A ditadura que se seguiu, extinta somente em 1990, deixou herança que ainda impõe limitações à liberdade desfrutada pelos chilenos.

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