A entrevista de Stedile na Globo News e as saídas para crise. Por Beto Almeida


Foi, realmente, uma grata surpresa assistir a entrevista João Pedro Stédile, economista e membro da Coordenação do MST, concedida ao programa Diálogos, com Mario Sergio Conti, na Globo News. Como nesta emissora, a programação tem sempre sintonia com uma linha editorial que favorece a defesa e consolidação das políticas e dos privilégios da oligarquia financeira internacional, do grande poder econômico privado e um ataque implacável ao papel protagonista do Estado, a presença de Stedile nesta tela surpreende pela objetividade, coragem e lucidez com que analisa a crise atual do capitalismo no Brasil.



A começar por destruir mitos, construídos, entre outros, por este mesmo canal televisivo, como aquele que aponta a corrupção como a explicação da crise e o centro de todos os males. Stedile mostrou claramente que o problema é da economia, de uma política econômica que leva à concentração de riquezas, redução produtiva e, consequentemente, a mais desemprego e mais miséria.

Lula nas ruas

É bem possível que a abertura deste espaço televisivo para Stédile guardasse também a esperança de que o mesmo ajudasse a criar mais dispersão e dificuldades para o campo progressista, após a deposição de Dilma Roussef, sem provas, e também sem reação à altura do significado do golpe. A valer este raciocínio, certamente a emissora se arrependeu do convite, pois ele permitiu a Stédile explicar com visão popular vários problemas brasileiros atuais. Mas, principalmente, porque Stédile com sua desenvoltura peculiar, defendeu que Lula esteja nas ruas, em campanha, por ser quem tem autoridade, moral e capacidade de unir as forças progressistas e de falar à grande massa de brasileiros, especialmente aquela fora dos sindicatos e dos movimentos sociais organizados.

Rigorosamente, não é nada banal esta defesa de Lula,na Globo News, e feita por Stédile, porque é exatamente nestas telas que Lula vem sendo criminalizado, tem sua imagem atacada cotidianamente, e é acusado, sem provas, por uma linha fascista que ganhou espaço militante no judiciário, ressuscitando práticas medievais do direito. E por que não Aécio, Serra e Temer não são sequer mencionados, perguntou Stédile? É só para o Lula? O constrangimento do jornalista era evidente. E pode ter surpreendido também a alguns setores progressistas, que andam meio confundidos diante do dilúvio de acusações facciosas e falsas com que a direita tenta condenar Lula, antes mesmo de julgá-lo.

Industrialização, Fidel Castro e Era Vargas


Outros pontos importante foram levantados corretamente por Stédile, aproveitando bem o espaço quase sempre fechado para ideias de esquerda. Por exemplo, quando denunciou a redução do espaço da indústria no conjunto da economia brasileira, que já foi de 50 por cento na época do regime militar e, agora, está reduzido a 13 por cento. Foi correta também a responsabilização de FHC que, em seus governos, seguindo orientação do Banco Mundial, reduziu juros para a agricultura, para debilitar a indústria. Neste particular, vale lembrar importante análise feita por Fidel Castro sobre a ditadura brasileira, na época de Geisel. Segundo o líder cubano, que não será apagado da História, “a ditadura brasileira é industrializante e estatizante, enquanto a ditadura argentina é desindustrializante, privativista”.

A soberana nacional ameaçada e o debate com os nacionalistas


Como não é tema simples de debate, mesmo na esquerda, a justa colocação de Stédile permite contextualizar que a industrialização no Brasil teve forte impulso a partir da Revolução de 30, com a Era Vargas, e tudo o que foi instalado neste período, com forte presença estatal e apoio popular, é o que está sendo demolido hoje pelo usurpador Michel Temer. Este além de seguir à risca as política de FHC que anunciou a decisão de “destruir a Era Vargas”, vai ainda mais além, e planeja levar o Brasil de volta à República Velha. A ditadura cívico-militar não pretendeu demolir a CLT, nem a Previdência, nem a Petrobrás, ao contrário, a estatal foi fortalecida, embora sob políticas autoritárias. Vale lembrar que Geisel, quando jovem, foi um tenentista e um varguista militante. Também deve-se recordar que quando Lula, na presidência, mencionou positivamente o período de Geisel, suas palavras foram recebidas com incompreensão em alas da esquerda. Na entrevista, Stédile levanta novamente o tema, que deve ser debatido com profundidade e contextualização.

Outra denúncia importantíssima feita por Stédile na Globonews refere-se à violação da soberania nacional. Como se sabe, há ameaças de interrupção do Programa Nuclear Brasileiro, também fundado na Era Vargas , sendo que um de seus mais qualificados quadros, o Almirante Othon Pinheiro, ex-presidente da Nuclebras encontra-se preso, também sem provas , como ocorre com a nova prática medieval do judiciário de prender para pressionar e coagir. Nesse sentido, Stélide levantou um tema extremamente importante para debate inclusive com os nacionalistas, de dentro e de fora das Forças Armadas, pois é sabido que o Almirante Othon nega-se, de forma patriótica e altiva, a repassar qualquer informação estratégica sobre as tecnologias nucleares brasileiras que sempre foram cobiçadas pelos EUA, interessados em impedir o desenvolvimento científico-tecnológico brasileiro nesta área. Assim, o tema levantado por Stédile merece ser amplamente debatido por toda a sociedade, sobretudo no meio militar.

Contextualizando, o golpe que forças imperiais promoveram contra Dilma e lula em 2016, tem como pano de fundo o intervencionismo ocorrido em outros países com riquezas energéticas ou com importante desenvolvimento industrial e em tecnologia de defesa, como a Yugoslávia, esquartejada, a Líbia e o Iraque, demolidos, e, agora, com a Síria, que apenas não foi totalmente dominada pelo intervenção imperial mercenária , em razão da determinação de seu governo e de seu povo, bem como ao apoio decidido da Rússia, do Iran e também do Hezbolah, um expressão impactante e prática da teologia da liberação.

Registre-se que empresas brasileiras foram expulsas do Iraque e da Líbia por meio de bombardeios da Otan , favorecendo a ocupação de mercados por empresas norte-americanos, francesas e inglesas. Se nestes países acima citados, a intervenção imperial visando a recolonização, deu-se por meios militares, com gigantesca manipulação midiática para justificar as chamadas “guerras humanitárias” - disfarce de guerra imperial - no caso do Brasil a intervenção externa se dá por meio do parlamento, do judiciário e também da mídia, tendo já alcançado uma expressiva paralisação produtiva de projetos ligados à Petrobrás e realizados pelas empresas de engenharia nacional, agora alvo de ataques descarados por meio do Departamento de Justiça dos EUA, como é o caso da Odebrecht.

A clareza com que Stédile defendeu que Lula esteja em campanha significa também defender o papel central do estado e da engenharia nacional no seio de um projeto que vise recuperar as políticas de distribuição de renda, de geração de empregos em massa, de inclusão social, o que inclui a reforma agrária, o fortalecimento dos bancos públicos, hoje estrangulados, e um esforço efetivo de democratização dos meios de comunicação. Trata-se de entrevista muito útil, ilustrativa e que deve merecer atenção e reflexão de todos segmentos comprometidos com uma saída democrática e soberana para a crise brasileira



Beto Almeida

Jornalista

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